E a virada, hein? – Parte 1

Gente, tô vivo!

Fui arrebatado momentaneamente pelos meus pais e levado para um fim de mundo, mas voltei para contar.

Há vida após “a morte”!

Bom, para a minha mãe, a experiência foi quase essa. Já para o meu pai, ele foi quase vítima de um “maridicídio”.

Maridicídio. Substantivo masculino. Ato de esganar marido desatento que esquece de pagar o boleto do hotel, que garantiria a reserva.

Meus pais decidiram que passaríamos o Ano Novo em um lugar calmo, quase sem movimento, integrados à natureza. Acontece que minha mãe odeia fogos. Odeia muito. Toda vez que ela entra numa de se tornar uma pessoa evoluída, zen, daquelas que não xinga nem a mesinha de canto quando dá uma topada, o processo é interrompido pelo barulho de um rojão. Parece até aquele carinha que era médico e virava monstro ou que ela divide o corpo com um simbionte alienígena, porque baixa o capeta nela e as coisas que fala não podem nem ser reproduzidas aqui. Assim, como nenhum de nós quer conviver com a minha mãe virada no jiraya em plena passagem de ano, nada de praia de Copacabana, Cabo Frio, Guarujá, ou Ubatuba. O nosso destino foi escolhido a dedo: praia de Xaturiba.

Minha mãe preparou a viagem toda. A viagem seria de carro. Assim, o roteiro de cada dia foi cuidadosamente escolhido e o hotel, devidamente selecionado. Ao meu pai cabia apenas pagar o boleto impresso na internet que garantiria a reserva do quarto.

Saímos na manhã do dia 30/12 de Aroeirinha. A ideia era chegar no início da noite em Xaturiba. Doze horas de viagem, se meu pai dirigisse sem paradas. Acontece que a Pestinha tinha que perturbar e pedir para fazer xixi de 1 em 1 hora. Caramba, nem parece uma menina de 10 anos! Tá mais pra aqueles tiozinhos pé de cana, com barriga de grávida e pé inchado (daqueles que as tiras da sandália quase arrebentam e os dedos esparramam pra não roçar um no outro e assar a região).

Além desse inconveniente, o qual acabou atrasando a nossa chegada, ainda precisei aturá-la cantando. A minha sorte é que eu havia baixado umas playlists de trap e carregava o meu fone de ouvido, do contrário, ou eu me atiraria da janela do carro ou, convenientemente seria esquecido em uma das paradas feitas pra bexiga cantora se esvaziar.

Após quase 14 horas de tortura, chegamos ao hotel. Meu pai nem sentia mais os braços. Tudo dormente. Minha mãe repetia que estava cansada e necessitada de relaxar no ofurô. A bexiga cantora correu até a recepção para caçar um banheiro, e eu só pensava em comer. Estava morto de fome!

Entramos no lobby e ficamos todos maravilhados. Até me surpreendeu, pois meu pai é meio pão duro controlado, e em geral não frequentamos lugares assim. Parecia um desses hotéis de filme, desses em lugares exóticos, com tochas nos jardins, fontes com pedras, almofadas em tecidos brilhantes, piscina com borda infinita e o tal ofurô, que minha mãe não parava de falar. O lugar tinha além de música ambiente, cheiro ambiente.

– Manuela, você não tinha dito que era um hotel 5 estrelas…

– É um hotel boutique, Oscar. Tudo rústico, mas chique. Vamos logo fazer o check in e esquece a fatura do cartão, ao menos uma vez na vida!

Encostamos no balcão da recepção e enquanto eu me distraía com o menu e a descrição do buffet de café da manhã – e ouvia meu estômago berrar igual à Chica cantando Paulo Avatar – , meus pais foram atendidos por um rapaz de coque.

– Boa noite! Bem vindos ao Xaturiba Boutique Hotel. A reserva está no nome de…?

– Boa noite… Manuela Souza – disse minha mãe, sorrindo de orelha a orelha.

– Um minuto, por gentileza.

O último samurai começou a digitar no computador e a fazer umas caretas que concluí não indicarem nada de bom.

Tec…tec.. tec… Hum… tec… tec… tec…

Senhora Manuela Souza, localizei aqui uma reserva feita através do site para o período de 30/12/18 a 02/01/19.

Ah, maravilha! Qual o quarto? Solicitei um com camas duplas.

A questão é que o sinal não foi pago, e é política do Xaturiba Boutique Hotel somente garantir as reservas as quais o sistema sinaliza o pagamento. Assim, o quarto foi liberado.

– Como pode? Olha esse seu sistema direito! Eu imprimi o boleto com o valor do sinal e entreguei ao meu marido…

Foi aí que ela se deu conta. Apesar de fuzilar meu pai com os olhos, que estava mais roxo que a almofada do sofá, ela falou com a voz mais mansa que conseguiu, tentando se manter fina:

– Amorzinho, querido…você não pagou o sinal do hotel?

– Eu…eu…pensei ter pago. Devo ter esquecido.

– Deve ter esquecido? – saiu entredentes. – Foi você que exigiu que fosse por boleto com receio de colocar dados do cartão na internet.

– Me desculpe querida…Não vamos deixar que isso estrague nossa viagem. Tenho certeza que conseguiremos outro quarto, não é… – e olhando o crachá do último samurai, falou – Miqueias Mauze, por favor, olhe novamente.

Sinto informar senhor que isso, infelizmente, não será possível. O hotel está lotado.

O desgraça do Miqueias Mauze não estava ajudando. Eu até entendo que ele tenha raiva da família patriarcal com um nome desses. Eu também teria. Mas ele que se vingue dos próprios pais. Se não conseguíssemos um lugar pra ficar, perigava meu pai não ver a passagem de ano.

Não teve jeito. Acabamos em um camping decadente, porque o camping boutique indicado pelo Miqueias também estava lotado.

O dono do camping fez um tour dos horrores conosco. Conhecemos a área das barracas, o banheiro xexelento e o salão do vômito, apelido que dei para o salão das refeições. Pra piorar não tinha uai-fai !! Não sei se tínhamos nos perdido e acabado no Acre, mas era literalmente o fim do mundo!

Ao menos o seu Catimba nos emprestou uma de suas barracas e os sacos de dormir.

Minha mãe penalizou meu pai colocando-o para armar a barraca enquanto ela tentava descolar alguma coisa que lembrasse comida para jantarmos.

Acho que só conseguimos dormir naqueles sacos fedendo a suvaco porque estávamos todos exaustos. Primeiro dia da viagem concluído.

To be continued… 🤪

P.S1: imagem do blog geradormemes.com e nãoentreaki

PS2: separei em duas partes pra não ficar cansativo. 😬

PS3: o coitado realmente se chamava Miqueias Mauze. Eu não me aguentei e perguntei a razão do nome. Ele respondeu que era de origem francesa. Aham…

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