Um Conto de Natal – parte 1

Dia 24 de dezembro. Véspera de Natal. Ocasião em que todos se reúnem com seus familiares em volta de uma mesa composta por comidas especiais – daquelas que não se come no dia a dia -, trocam presentes ao redor da árvore enfeitada de luzes e bolas brilhantes e esquecem, ainda que momentaneamente, de todas as tretas e confusões arranjadas em família no ano que se passou (ao menos até que surjam novas, o que em geral não demora muito porque família reunida é como misturar coca-cola com mentos).

Mas para existir aquela ceia perfeitinha, recheada de coisas gostosas (com exceção das uvas passas), é preciso todo um antes, todo um preparo que se assemelha ao treinamento do BOPE. Coisa pesada mesmo. Só para os fortes!

Porém, contudo, todavia, como o Natal é época de se fazer as pazes, perdoar, querer ficar junto, tentar ser um pouquinho melhor, eu concordei de livre e espontânea vontade em ajudar a minha mãe e passei um dia 23 daqueles!

Primeiro, minha querida mãezinha, suprema deusa universal me convocou para fazer compras de última hora para a ceia. Não foi um pedido… não foi um convite, foi uma intimação!

– Ahhhh, leva a Pestinha…

– Max, sua irmã é pequena para me ajudar a empurrar o carrinho e carregar as compras e além disso…Ei… pare de chamar a sua irmã assim!

– Mas é um apelido carinhoso que reflete a personalidade dela…

– Maaaxxx!!

– Tá bom…

– Bom, temos que ir ao mercado comprar algumas coisas que preciso para a ceia e depois ao shopping.

– Ao shopping também??

– Sim. Preciso comprar um presente para seu tio Henrique e quero levar sua irmã e prima para tirar foto com o Papai Noel.

– Mãe, mas isso é loucura! O shopping hoje deve estar igual à praia em feriadão.

Não teve jeito. Me enchi de coragem e parti para a minha missão.

A primeira parada foi no Supermercado “Barato-Baratão”, o maior mercado aqui da minha cidade.

A aventura já começou antes de se conseguir entrar no estacionamento, eis que havia uma fila descomunal. Graças a Deus o meu pai não tinha vindo junto: com a gasolina a quase 5 reais o litro, andar de carro com ele era um passeio pelos rios de lava do inferno. Nada de ar condicionado. Suar faz bem e libera as toxinas do organismo. Colar a blusa no estofado do carro é mero efeito colateral e respirar o ar livre é ótimo para a saúde. Oi? Respirar o bafo do diabo e queimar as narinas e os pulmões é bom, sim. Aham…

Mas como eu ia dizendo, por um lado foi uma grande sorte ele não ter vindo, já por outro… Minha mãe é um pouquiiinho barbeira, então, conseguir uma vaga foi digamos assim, uma prova de que meu coração é de ferro. Me senti no próprio GTA. Estávamos obedecendo a fila, porque minha mãe é dessas (segue regras, toda certinha e tal, mas vira um ser tomado por uma fúria ancestral quando vê os outros praticando o famoso jeitinho brasileiro), quando finalmente ela encontra uma vaga. Percebemos que entrar de primeira seria impossível.

– Ô, mãe, olha aquele carro vindo ali…

– Calma, Max. Ele está me vendo manobrar pra entrar na vaga…

E não é que o carro roubou a vaga dela?! Se a minha mãe fosse o Chuck Norris, isso não teria acontecido!

Rapaz, foram 30 segundos de choque. Ela só percebeu o que tinha ocorrido quando o motorista saltou na maior cara de pau. Olhei para a minha mãe e ela segurava o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Já os olhos encaravam o motorista surrupiador de vagas de uma forma que se fosse possível fritar alguém com o olhar só tinha sobrado a fumacinha. Avadaaaaaa Keda… Maldição interrompida já que não é legal matar ninguém no Natal, nem mentalmente.

Bom, talvez mentalmente e só determinadas pessoas. 😬

De repente ela começou a dar a ré no veículo. Parou. E aí, surpreendentemente começou a acelerar na direção da vaga.

– Vamos ver se ele puxou o freio de mão…

Eu não estava acreditando! Segurei naquele ganchinho que fica no teto acima da porta do carro e que tem um apelido inusitado composto por três palavrinhas (não posso falar palavrão) e comecei a berrar:

– Mãe! Mãe!! Mãããeeee!! É Nataaalll!!

Que som maravilhoso esse: o grito do pneu quando se freia bruscamente! 😰

Levamos mais 30 minutos para achar outra. 😒

Finalmente, entramos no mercado. Aquilo lá parecia um formigueiro em dia de chuva forte. Ou pior, o aniversário Guanabara.

– Max, consegue um carrinho e me encontra na sessão de hortifruti.

Quase não havia carrinhos disponíveis. Na verdade, mal se podia andar direito nos corredores. Avistei um único carrinho dando sopa e, como um peregrino sedento no deserto quando enxerga um oásis, saí correndo como se a minha vida dependesse daquele carrinho de mercado.

Me esquivei de um menininho tirando meleca, de um casal formado por uma popozuda num shortinho e um tatuado que mais parecia ter dois “chester perdidão” no lugar de braços de tão bombado que era, de um adolescente estilo “flocos crocantes” dada a quantidade de espinhas leitosas prontas para eclodir, e de mais um monte de pessoas que vinham como ondas ou zumbis atrás do único cérebro fresco existente no local (o meu).

Depois de alguns esbarrões, cheguei trôpego ao meu objetivo e quando estiquei o braço e coloquei a mão no guidom do carrinho, uma velhinha de andador, surgida sabe-se lá de onde, avocou o dito cujo para si.

Pode não parecer, mas eu sou um menino bom. Assim, imbuído do espírito natalino permiti que a velhinha ninja ficasse com o meu carrinho e parti para lutar por uma cestinha.

Tá, minha mãe não ficaria nada satisfeita, mas uma cestinha era melhor do que nada.

Exausto, com um rasgo na gola da blusa e com a unha do dedão do pé esquerdo roxa, de tanta pisada que levei, encontrei a minha mãe irritada. Aparentemente ela perdeu o último abacaxi para outra pessoa, mas se agarrou em 3 caixas de uvas passas. Acontece que minha mãezinha adora uva passa e aproveita a ceia do Natal como desculpa para inserir a iguaria em quase tudo. Se ela não tivesse conseguido as uvas passas, essa ida ao mercado acabaria em morte.

O nosso suplício acabou na fila dos 10 volumes. O Barato-Baratão separa dois caixas para 10 volumes e prioridades. É um tal de gente se passando por grávida, manco, gago, fingindo ter bico de papagaio só para passar ali. Minha mãe já estava suada, desgrenhada, impaciente e preocupada com a hora, já que tinha marcado de buscar a Pestinha e minha priminha para irmos ao shopping – a segunda etapa desse dia maravilhoso. Por isso, foi por muito pouco que ela não deu um ataque ali na fila. O que a impediu? O espírito do Natal. Essa vontade louca de ser bonzinho e gentil (mesmo com quem não retribui), de desejar a todos muita luz, paz e amor em vez de uma tremenda dor de barriga. Porque o Natal é muito mais do que cear e ganhar presentes. É a celebração do nascimento daquele que há 2000 anos nasceu para nos ensinar o verdadeiro significado da palavra amor.

Que você tenha um Feliz Natal! 🎄 🙏🏻

PS1: como o relato do Barato-Baratão ficou muito longo, decidi contar a parte do shopping em outra postagem.

PS2: imagem do site mentirinha.com.br

PS3: imagens da internet.

3 comentários sobre “Um Conto de Natal – parte 1

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