Um Conto de Natal – parte 2

Sobrevivi à ceia. Também não esganei ninguém graças ao grande controle mental adquirido nas partidas de futebol online e pela intercessão do Espírito de Natal. Mas não faltou vontade de mandar a Pestinha pro saco.

Depois do sufoco que passei no mercado Barato-Baratão, a minha missão ainda não estava concluída. A pior parte estava por vir: acompanhar minha irmã e priminha ao shopping para que tirassem foto com o Papai Noel.

O trajeto de casa até o Village Aroeirinha foi coisa de louco. Minha mãe, que já estava irritada, parecia possuída ao volante. Dirigia de um jeito que eu nunca tinha visto. Repetindo o mantra “nenhuma vaga a menos” não deu passagem a outro veículo que tentou mudar de faixa sem sinalizar; parada no trânsito, deixou o carro embicado de um jeito que impedia o tráfego pelo acostamento; ficou buzinando para um automóvel que parou em cima da faixa de pedestres e acho que cheguei a ver um dedo feio para uma motorista que fechou um cruzamento. Mães sabem como despertar nos filhos o que há de melhor: lembrei de todas as orações que minha avó me ensinara e fui o caminho inteiro rezando e prometendo me tornar uma pessoa totalmente do bem, caso sobrevivesse, já que pra mim, aquilo tudo não era mera TPM – a TPM não faz escorrer uma baba verde pelo canto da boca, ou faz? Tudo isso, enquanto a Pestinha e a Gegê no banco de trás cantavam músicas de Natal, como se nada de anormal estivesse acontecendo. Ainda tentei tocar uma playlist do Padre Fábio Marmelo, vai que isso surtisse algum efeito, mas a chata da minha irmã não concordou em interromper a sua cantoria. 🙄

Eis que finalmente chegamos ao shopping, vivos! E depois de mais uma saga para conseguir uma vaga, adentramos os corredores abarrotados. Parecia uma manada ensandecida fugindo de uma erupção vulcânica.

Eu estava vivendo o meu próprio apocalipse natalino! Centenas de pessoas tiveram a mesma necessidade de comprar presente para os tios Henriques da vida e de tirar foto com o Papai Noel.

Minha mãe nos puxou para uma loja, agachou-se e nos encarando, falou:

– Max, pega a sua irmã e a Gegê e vá para a fila da foto. Não solte a mão delas por nada nesse mundo! – disse, em um tom desesperado. – Eu vou comprar o presente do seu tio e nos encontramos lá mesmo.

Ô tentação! 😬

Quando eu estava quase cedendo, o Espírito do Natal apareceu. E eu que imaginava uma versão mais fluida do Papai Noel, me deparei com a Chica, verde (*). Parecia o cruzamento do Yoda com uma batata de cabelo.

Ela abriu a boca, e ao fundo rolando uma batida de funk, proferiu as seguintes palavras:

– Max, o bom menino respeita os mais velhos – Chu cha cha… – o bom menino não bate na irmãzinha – Chu chu cha…; – Papai do céu protege o bom menino – Chu cha cha… – que respeita sempre, sempre a mamãezinha – Chu chu cha… 🎵🎵🎵

O Espírito de Natal travestido de Chica me tocou profundamente com o seu funk sábio. Eu precisava obedecer à minha mãe e não soltar a mão de ninguém, por mais quilométrica que estivesse a fila para tirar a tal foto com o Papai Noel. Eu resistiria fervorosamente a vontade de tomar um sorvete e de me livrar da minha irmã, afinal eu era um bom menino!

Passada meia hora chegou a nossa vez. Até que para uma fila gigantesca, ela estava andando rápido. Fiquei surpreso com tamanha rapidez e deleguei tal fato ao Espírito de Natal. Eu estava sendo abençoado pela minha bondade e desprendimento. 🙏🏻

Bom, ao menos foi isso que eu havia pensado. Mas, logo descobri que a fila andou a jato por dois motivos: muitas crianças quando colocadas no colo do Papai Noel começavam a chorar e, o coitado tava com uma suvaqueira daquelas! 🤢

Também, olha a roupa do homem em pleno verão infernal! Só crianças entupidas de catarro ou que queriam muito, muito mesmo, ter seus pedidos atendidos, é que aguentavam posar para as fotos.

Tomado por uma vontade incompreensível de ser legal com a minha irmã, a aconselhei a não tirar a foto, o que foi solenemente ignorado. Testemunhei quando ela e a Gegê foram chamadas e ao sentarem no colo do velhinho fedorento, a Pestinha respirando pela boca entregou a ele um papel.

O velhinho abriu, leu, olhou pra mim, e depois entregou o papel ao duende que o acompanhava. Pronto. Fiquei curioso. Eu precisava colocar a mão naquela cartinha.

Cheguei no duende de olhar esbugalhado e tentei levá-lo na conversa. Não adiantou. O disgramado me pediu um troco “pro café”.

Sei! Café, hein? 😒

Sorte minha que eu tinha 10 reais no bolso. E lá se foi o meu sorvete.

Papel entregue, fui ler o pedido da Pestinha. Um pedido tão importante que a fez encarar um barbudo suado, algo que em condições normais ela não faria nunca já que reclama à beça quando eu chego em casa depois do futebol.

Descobri que minha irmãzinha querida estava tentando se livrar de mim! E não há meio melhor, do que oferecer o irmão para um trabalho escravo.

Sabem o que aconteceu com ela? Nada. Por um milagre de Natal, eu não retribuí o “carinho”.

Feliz Natal, gente! 🎄🎄🙏🏻🙏🏻

P.S.1: Para quem não conhece a Chica, ela é a faxineira hiperativa lá de casa e que ama a Paulitta. A Chica já apareceu em diversos textos aqui do blog, sempre com um conselho importante na forma do trecho de uma música.

P.S.2: Tirinha de “Um sábado qualquer”.

P.S.3: trecho da música “Bom menino”.

P. S.4: foto da carta da Pestinha, que só não rasguei completamente porque pode me ser útil no futuro.

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